Ricardo Krone, pioneiro da espeleologia brasileira (1861-1917)

Gruta do Arataca. Foto: Ricardo Krone

Gruta do Monjolinho. Foto: Ricardo Krone

Em 09 de setembro de 1917, faleceu Ricardo Krone (Sigismund Ernst Richard Krone), o Major Ricardo como era carinhosamente chamado pelos moradores de Iguape, cidade onde viveu no Brasil.

Para nós do GPME, Krone é o legítimo fundador da espeleologia brasileira, dada a profundidade com que ele estudou as cavernas tratando da sua gênese, suas formas, tipos e morfologia. Ele compreendeu as cavernas como parte dos complexos sistemas hídrico, geológico e geomorfológico do Alto Ribeira.

Krone exaltou não apenas os valores estéticos, mas afirmou a antiguidade e os processos químicos que resultam nos ornamentos que preenchem o interior das cavernas. Em suas pesquisas, relacionou brilhantemente as cavernas que visitou à história natural e cultural regional.

Ainda que não se possa afirmar que Krone dispunha de valores ecológicos nos moldes da atualidade, a sua forma de expor a diversidade natural e cultural do Vale do Ribeira foram essenciais para que décadas após a sua morte, esse patrimônio pudesse ser compreendido como a maior riqueza definidora da identidade regional.

A persistência demonstrada por Krone em expor seus levantamentos espeleológicos em inúmeros ambientes de discussão científica, política e cultural nos quais ele ressaltava a necessidade de preservação das cavernas, é vista pelos especialistas que o têm como referência como um marco fundamental para as decisões políticas que permitiram a proteção legal para as cavernas em São Paulo e no Brasil.

Além de ser considerado um pioneiro para os espeleólogos, Krone também é recorrentemente lembrado por arqueólogos, botânicos, etnólogos, geólogos e zoólogos brasileiros pelas inúmeras contribuições que ele deu para estas áreas.

Seu legado foi relembrado nas varias publicações espeleológicas resultantes de atividades das décadas seguintes, impulsionadas por espeleólogos universitários brasileiros e por estrangeiros que, como Krone, vieram a trabalho, mas fixaram residência no Brasil e passaram a dedicar o seu tempo em trabalhar pela conservação de cavernas. Entre eles, destacamos Pierre Martin (homenageado pelo GPME), Michel Le Bret e Guy C. Collet.

A morte de Krone trouxe tristeza para a comunidade científica do começo do século XX, já que suas atividades de campo, combinadas à sua atitude generosa, contribuíram para as pesquisas em inúmeras especialidades acadêmicas. A seguir reproduzimos os testemunhos de Edmundo Krug e dos editores da Revista do Museu Paulista, na edição de 1918, logo após o falecimento de Krone. A homenagem póstuma destaca as múltiplas faces desse que para nós é e será sempre o precursor da espeleologia brasileira. A escrita original foi mantida para representar o contexto da época.

Foi com verdadeiro pezar que quantos conhe­ceram o homem erudito e modesto, consciencioso e indefesso trabalhador, dedicado amigo do Brazil e sobretudo da zona a que tanto se affeiçoara e onde tantas amizades grangeara, foi com maior sentimento que quantos privaram com Ricardo Krone vieram a ter conhecimento de sua morte occorrida em Iguapé a 9 de Setembro de 1917. Bem sabíamos que pouco tempo de vida lhe restava, cardíaco adianta do como estava ; nutríamos porém a esperança de que alguma compensação se estabelecesse, dessas que frequentemente occorrem nas moléstias circulatórias, conservando por mais alguns annos, ao seu paiz de adopção, aos amigos, a existência cheia de serviços, a pessoa tão sympathica do modesto scientista da Ribeira. Infelizmente tal não succedeu; approuve a Deus chamar a si Ricardo Krone ; poucos dias antes de expirar corrigira provas do exceliente artigo de prehistoria paulista que o presente tomo da Revista insere e foi o seu canto do cysne : O cemitério do Pombeva.

Nascido a 18 de Junho de 1861 em Dresda e filho do Conselheiro Hermann Krone, lente da Es cola Technica Superior da Capital da Saxonia, fez Ricardo Krone excellentes estudos humanísticos na sua cidadade natal, onde também frequentou as au las da escola em que seu Pae professava. Conclu indo o curso de engenheiro geographo resolveu emigrar para o Brasil onde, em 1884, veio estabe­lecer-se, trabalhando como agrimensor e engenheiro na província de S.  Paulo.   Entre outras commissoes que lhe couberam sabemos que exerceu o car­go de engenheiro da construcção da Sorocabana, e de uma companhia de núcleos agrícolas. Viajando pelo valle da Ribeira enlevou-se pela natureza daquella região passando a fixar-se em Iguapé onde habitou uns vinte e muitos annos. Não lhe foi difficil, intelligente e instruído como era, arranjar alli os meios de subsistência, quer medindo terras, quer como pharmaceutico licenciado, quer ainda como correspondente de Museus da Europa, e dos Esta­dos Unidos.

Intelligencia summamente curiosa e orientada para a sciencia, apaixonado da zoologia, da geologia, e da anthropologia, não tardou a destacar-se pelos estudos sérios levados a effeito quer especialmente em relação a aves e peixes, quer quanto á speleologia da região, quer quanto ás pesquizas realizadas nos sambaquis onde, com singular afinco e verda­deira anciã, perscrutava as questões da prehistoria paulista ainda incipientemente estudadas.

Magnificas collecções ornithologicas e iehtyologicas ajuntou que forneceu aos grandes museus do mundo, visitou detidamente as grandes cavernas da zona sobretudo as de Iporanga, a elle se devendo a campanha que tanto pôz em destaque estas maravi­lhas do nosso território; assignalou-Ihes a fauna icthyologica ao sábio especialista que é Alipio de Miranda Pibeiro.

Os estudos que lhe deram maior destaque nas ro das scientificas foram, porém os de prehistoria. Fez importantes descobertas nos sambaquis entre outras a do celebre idolo anthropomorpho de Iguapé, de duziu judiciosas consequências dos elemementos ana tômicos exhumados, para uma serie de conclusões anthropologicas valiosas.

Assim, entre os amigos, isto é, todos os habitantes de Iguapé — popularissimo em toda a região da Ribeira como era o Major Ricardo — no meio dos seus e dos queridos livros, das collecções zoo lógicas e anthropologicas que formara, cxcursionan do aqui e acolá com fins scientificos, viajando e estudando decorreram os últimos decennios da vida fecunda do amigo das sciencias.

Tinha em muito menor conta os seus conheci­mentos do que realmente valiam ; numerosas foram as sociedades scientificas que o chamaram ao seu grêmio espontaneamente, muitos os doutos que o applaudiram sobremaneira elogiando-lhe os estudos; jamais lhe deram taes distincções o menor vislumbre de vaidade. Era uma alma simples e bôa de eru­dito, esse apaixonado da nossa natureza e do nosso remoto passado precabralino.

A seu respeito escreveu sentido necrológio o Dr. Edmundo Krug, na Tribuna de Santos de 13 de Setembro de 1917, artigo que transcrevemos para maior homenagem á memoria do erudito e saudoso amigo do Museu e collaborador da Revista.

« Não existe mais entre os vivos o modesto e sympathico naturalista Ricardo Krone !

Poucos são os que, aqui em Santos, conhece­ram de perto este incansável investigador scientifico, e muito poucos são ainda aquelles que privaram in­timamente com elle.

Filho do professor Krone, da Universidade de Dresde, teve Ricardo Krone uma boa educação ; mas, ávido de conhecer novas terras, levado pelo instincto nato de futuro naturalista, Krone immigrou muito cedo para o nosso lindo Brazil, tendo sido ajustado como agrimensor por uma poderosa companhia agrí­cola, que possuía vasta extensão de terrenos no fertilissimo valle da Ribeira de Iguapé. Não tendo muita inclinação para este officio, elle estabeleceu-se como pharmaceutico em Iguapé, de onde datam os seus mais importantes estudos.

Dedicou-se á speleologia, á antropologia, á zoo­logia, sendo seu predilecto estudo o da ornithologia.

No meu trabalho sobre a Ribeira de Iguapé, memoria mandada publicar em 19o8 pelo então se­cretario da Agricultura, dr. Carlos Rotelho, dizia eu o seguinte :

« Quem visitar ou passar casualmente por Iguapé, não deve  deixar de fazer o conhecimento de tres senhores que ali vivem, somente por amor ás sciencías. Eu digo por amor ás sciencias, pois não posso acreditar que pessoa que possua uma educação su­perior ao nivel commum, possa viver num logar morto e ermo. O primeiro destes senhores, Ernesto Guilherme Young, prestou tão relevantes serviços ao nosso Estado, que o Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo achou-se na agradável contigencia de conferir lhe o titulo de sócio honorário.

O segundo, que compõe este « trio scientifico », é o pharmaceutico sr. Ricardo Krone, que estuda com amor e perseverança os Sambaquis (restos de cosinha prehistoricos ) daquella zona ; foi elle que descobriu nas suas escavações muito assumpto e ob­jecto novo para a sciencia. O nosso Museu do Ypiranga, aqui em São Paulo, deve-lhe, incontestavel­mente, muito sob este ponto de vista. Ha, mais ou menos, um anno, o sr. Krone emprehenden, a pedido do sr. von Ihering, uma viagem a Serra dos Itatins. para colher dados anthropometricos dos índios abi residentes. A julgar pelas photograplnas, com as quaes elle teve a gentileza de me contemplar, não é dado duvidar do bom êxito do emprehendimento.

Se não me engano, figura o resumo dos resul­tados desta interessante excursão na exposição de S. Luiz; espero que este paciente observador me com­munique os mesmos, para fazelos publicar na Re­vista da Sociedade Scientifica de S. Paulo.

O sr. Krone é também um excellente conhece­dor da fauna ornithologica dos arrabaldes de Iguapé, e o seu museu particular, provido de uma extraordinária collecção de ovos, que é somente mostrada aos bons amigos e conhecedores do assumpto, prova sufficientemente esta affirmativa.

Infelizmente, não se afectuaram o estudo e as investigações nas bellissimas grutas calcareas da zona da Ribeira, de cujo estudo a commissão botânica austríaca encarregou o sr. Krone. Os motivos pelos quaes não se afectuaram as pesquizas são me desco­nhecidos, parecendo-me, porém, que houve alguma intrigasinha em jogo.   Em todo o caso, é de se sentir que este senhor não faça estas explorações, pois sem duvida é elle o mais profundo speleologo que possuímos em todo o Estado. Teria descoberto espécimens importantíssimos de animaes já desapparecidos, se tivesse tido a felicidade de levar a effeito a incumbência.

Ainda não perdi as esperanças de se effectuar o ernprehendimento : as importantes grutas calcareas com os seus bellissimos stalactites e stalagmites, dos quaes alguns tem o enorme diâmetro de 3 a 4 metros, não são somente dignas de serem estudadas mas é também um dever scientifico conservalas, pois julgo que ha ahi depósitos de ossos antidiluvianos e que nellas acham-se muitas fôrmas ainda desco­nhecidas .

Decorreram, pois, 9 annos da data da publica­ção do meu trabalho, e deste tempo para cá foi que appareceu uma bôa porção de trabalhos de alto valor deste infatigável scientista.

Talvez devido á grande amizade que elle tinha a Ernesto Guilherme Young, e instigado pela con­tinua correspondência que mantinha com alguns sócios de destaque da Sociedade Scientifica de São Paulo, o seu amor próprio de naturalista se desen­volveu mais ainda; e o homem, que vivia modes­tamente, examinando casas de vespas, ninhos e ovos de pássaros, barro cozido e caveiras achadas em «ostreiras», tornou-se repentinamente conhecido nos círculos scientificos de São Paulo.

O seu melhor trabalho foi aquelle que publicou annexo ao relatório da Exploração do Rio Ribeira de Iguapé, feito pela Gommissão Geographica e Geo­lógica, sobre os Sambaquis e Túmulos prehistoricos existentes na zona ribeirinha, trabalho este denomi­nado — « Informações ethnographicas do Valle do Rio Ribeira de Iguapé ».

Esta memoria foi lida, a meu convite, quando presidente da Sociedade Scientifica de São Paulo, nesta .sociedade, perante selecto auditório dos mais reputados scientistas da capital. As revelações feitas nesta noite por Krone causaram verdadeiro espanto.

e não houve um unico sócio desta aggremiação scientifica que não tivesse saído satisfeito da sesão.

As investigações de Krone iam tão longe que elle demonstrava positivamente que o povo dos sam­baquis não conhecia louça, affirmava que os mora­dores das ostreiras da Ilha do Mar iam caçar nos morros da terra firme; expunha que a fractura de um osso queixai, achado na ostreira, fora feita pelos sambaquieiros para extrahir a gordura que nelle existia ; e com toda segurança dizia que os restos humanos que foram encontrados, até hoje, nos mais antigos sambaquis, não são suficientes para se fazer uma pequena idéia do typo ethnico dos primitivos moradores da Ribeira.

Chamando a attenção de Krone para a grande messe de túmulos prehistoricos que encontrei no Rio Turvo, um dos fertilissimos tributários do Rio Pardo sem perda de tempo elle para abi se transportou, para esiudar este interessantíssimo asumpto, e no mesmo citado relatório da Commissão Geographica e Geológica descreve os preciosos achados de cemitérios prehistoricos na barra do Rio Tatupéra.

Como speleologo, isto é, como explorador das grutas calcareas, da zona yporangueira, Krone é sim­plesmente inatingível. As intrigas que certos scientistas fizeram em torno delle, quando recebeu ordem da commissão austriaca para explorar as grandes e magnificas grutas calcareas da zona da Ribeira pro­vavelmente calaram mais ainda no seu espirito de investigador, e alguns annos depois da publicação de seu clássico trabalho sobre os sambaquieiros re­cebemos com verdadeira satisfação, o elegante li­vrinho, mandado publicar pelo Museu Nacional, sobre a exploração das grutas calcareas da Ribeira de Iguapé. Abi está descripta a gruta do Monjolinho, com os seus estalactites, que nos contam historias passadas ha quasi 24 mil annos ; lêmos com verda­deiro gozo, a descripção da belíssima gruta da Tapagem, da elegante gruta do Rio Frias ( errada­mente assim chamada, por elle, pretendendo eu que seja denominado a gruta do Rio Claro) e outras sessenta de mais ou menos valor.

O que eu tinha predito no meu modesto tra­balho sobre a Ribeira, das grutas calrareas, tornou-se verdade, pois nellas achou Krone vestígios de ossos e esqueletos de anirnaes de épocas remotas, cujos descendentes já não mais existem.

Finalmente, deu Krone um parecer luminosís­simo sobre a conservação das grutas calcareas, quando tratamos na Sociedade Scientifica de São Paulo da desapropriação pelo governo, de algumas delias. Este parecer foi publicado na Revista da mesma socie­dade e assignado conjunctamente com Young, que se interessava igualmente pela conservação destes mo­numentos caprichosos da riquíssima natureza pátria.

Como zoólogo, foi Krone um incançavel colleccionador de ovos de pássaros da Ribeira de Iguapé, a sua collecção vale contos de réis e la estão representados os ovos de todos os pássaros da zona.

Dedicou-se, finalmente, Krone ao conhecimento dos peixes fluviaes da Ribeira de Iguapé e classifi­cados os seus espécimens apanhados, pelo nosso maior conhecedor de peixes, Alípio M. Ribeiro, este deter­minou-os como pertencentes a quinze diversas espé­cies, quatro delias julgadas novas. A maior sensa­ção causou, porém, a sua descoberta de peixes cegos nas grutas calceraes da zona da Ribeira. Fui eu nova­mente que o levei a tal facto, chamando-lhe a attenção para os anirnaes cegos que se encontraram nas grutas calcareas austriacas. O que tinha predito, succedeu : na caverna da Tapagem foram pescados os Typhlobagrus Kronei, classificados novamente por Alipio Ribeiro, e assim chamados em honra ao descobridor.

Eis ahi, em poucas palavras, quem foi Krone, o amigo dos brasileiros, o estrangeiro abrasileirado que amou a nossa pátria mais do que muito nacional, que pretende ser patriota!

Não se pôde dizer que Krone tivesse sido um sábio : para isso lhe faltava a instrucção solida de profissional; mas elle foi um investigador de bom senso, que indicou a muito sábio o caminho que de­via ser seguido para tirar grandes conclusões de pe­quenos factos.

A morte de Krone foi para muitos dos seus co­nhecidos uma surpreza, e para nós outros seus ami­gos, que o vimos ultimamente e que conhecíamos o seu estado de saúde, uma inconsolável dòr.

Deixa Ricardo um museu de alto valor, que provavelmente irá parar em mãos de pessoas que não lhe saberão dar o devido apreço. Appello daqui para o digníssimo Secretario do Interior, e principalmente para o dr. Taimay, filho do saudoso Taunay, autor da «Retirada da Laguna» e inseparável amigo de Hercules Florence, que ultimamente e tão acer­tadamente, foi escolhido para director do nosso museu paulistano, que adquiram esta preciosidade e que installem uma sala no próprio museu, sobre cuja porta se leia, escripto com letras douradas, o nome do saudoso—Ricardo Krone.»

Embora saibamos que Krone publicou memorias scientificas em numerosos periódicos extrangeiros inglezes, allemães e americanos, não nos foi possível porém colher apontamentos sobre estes trabalhos. Assim apenas podemos dar resumida resenha bibliographica de sua obra.

Na Revista do Instituto Histórico e Geogra-phico de S. Paulo encontramos : Contribuições para a etimologia paulista ( Tomo VIT) e o Ídolo anthro-pomorpho de Iguapé ( Tomo XVI ); nos Annaes do Museu Nacional: Estudos sobre as cavernas do valle do Rio Ribeira (Tomo XV); na Revista do Museu Paulista : As grutas calcareas de Ypiranga ( Tomo III ) e O cemitério de Pombeva ( Tomo X ) ; nas publicações da Commissão Geofjraphica e Geo­lógica do Estado de S. Paulo : Informações ethno-graphlcas do Valle do Rio Ribeira de Iguapé.

Pertenceu o saudoso scientista a numerosas so­ciedades scientificas e era correspondente de muitos museus ; entre estes citemos o Paulista, o Nacional, os do Pará, Philadelphia, Washington, Vienna, Stockolmo, Tokio.

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