Gruta dos Índios em Santa Cruz do Sul (RS) foi escavada por preguiças gigantes

Fonte: Redação Portal GAZ

Pesquisadores da UFRGS descartam que local tenha sido obra de indígenas

Por LUANA RODRIGUES

Superfícies côncavas formam câmaras de grande porte com feição característica de paleotocas

A Gruta dos Índios de Santa Cruz do Sul é, na verdade, uma paleotoca. A constatação foi feita por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integrantes do Projeto Paleotocas, coordenado pelo professor Francisco Buchmann. O geólogo Heinrich Frank e a graduanda de Geologia Camila Althaus estiveram no local na semana passada e, após a análise das feições existentes nas paredes da gruta, de um levantamento fotográfico e de uma avaliação da fauna, chegaram à conclusão de que o local é uma paleotoca, ou seja, um abrigo subterrâneo cavado por preguiças gigantes da chamada megafauna. Os dados obtidos foram comparados aos do banco de dados do projeto disponível em www.ufrgs.br/paleotocas.

Em todo o continente Sul-Americano existiam, até 10 mil anos atrás, animais de grande porte conhecidos como megafauna. Eram mastodontes, camelos, cavalos, ursos, tigres, lhamas, um animal semelhante a um rinoceronte sem chifres (Toxodon), preguiças gigantes e tatus gigantes. As preguiças gigantes tinham pesos a partir de 800 kg, portes de um touro adulto e patas com garras do tamanho de uma picareta.

Na região existem paleotocas em Boqueirão do Leão, Bom Retiro do Sul, Agudo, Tabai e em Fazenda Vilanova. Conforme os pesquisadores da UFRGS, devem existir outros locais semelhantes em Passo do Sobrado e Vale Verde, onde os morros areníticos são muito propícios à existência e preservação de paleotocas.

Para os pesquisadores, o reconhecimento da gruta de Santa Cruz do Sul como paleotoca ajuda a compreender a origem destas cavidades e a concluir sobre o modo de vida das preguiças gigantes. Os dados coletados serão comparados às paleotocas de Santa Catarina e Minas Gerais, onde já foram localizadas várias com as mesmas dimensões. Em breve, a equipe voltará ao local para efetuar uma medição detalhada das câmaras preservadas no fundo da gruta.

ANÁLISE DOS DADOS

Conforme a pesquisa, a Gruta dos Índios apresenta-se, de forma geral, bastante destruída e vandalizada. Quase todo o teto exibe feições de abatimento, que ocorre normalmente em períodos chuvosos, com infiltração de água da chuva e a queda de grandes blocos de rocha que depois provavelmente são retirados da gruta para permitir a livre circulação dos visitantes.

Os pesquisadores avaliaram que, como a gruta é intensamente frequentada há pelo menos 150 anos, a retirada de blocos caídos foi feita várias vezes. “Nas paredes laterais também são observados  muitos desplacamentos da rocha arenítica, sobrando poucas feições originais. E em todas as paredes existem nomes e datas riscadas pelos visitantes, um ato de vandalismo completamente desnecessário”, afirma o estudo.

A última câmara, 30 metros para dentro do morro, é a mais preservada

CONSTATAÇÕES IMPORTANTES

1. A gruta não foi escavada pelos índios: Se ela tivesse sido escavada, haveria marcas de ferramentas nas paredes, mas os indígenas que habitam o Brasil nunca tiveram nem motivos nem ferramentas para cavar cavernas. A escavação de cavernas só pode ser feita usando ferramentas metálicas devido à rocha muito dura, mas os índios não conheciam o ferro e, portanto, não dispunham de ferramentas adequadas para escavar uma rocha como o arenito em que a Gruta se situa.

2. Ela não é resultado da ação de águas subterrâneas: Não existe nenhuma entrada de água na gruta através de fraturas ou fendas, formando arroios ou rios subterrâneos que possam ter erodido a rocha e lavado a areia para fora do morro, formando a gruta. Também não há nenhuma cachoeira na entrada do local que possa ter jogado água contra o morro, formando a gruta.

3. Em dois pontos há possíveis marcas de garra: Uma das características das paleotocas são as marcas de escavação preservadas nas paredes. Essas marcas de garra formam sulcos longos, predominante verticais, com até 60 centímetros de comprimento, nas paredes dos túneis e câmaras. Em dois pontos da gruta foram encontradas essas marcas, muito mal preservadas.

4. Paredes preservadas são completamente lisas: Paredes côncavas e completamente lisas como as das câmaras já foram encontradas em outros abrigos subterrâneos. Segundo os estudos, as paredes lisas foram produzidas pelo roçar dos corpos das preguiças gigantes nas paredes. Essa ação ocorreu por décadas ou séculos através de sucessivas gerações de preguiças gigantes que ocuparam o abrigo subterrâneo. Provavelmente as preguiças formavam grupos familiares como os elefantes fazem hoje em dia. Não existe um processo natural ou do homem que produza superfícies deste tipo.

5. Há três câmaras de formato elíptico: Na porção mais profunda da gruta há três sucessivas câmaras de forma elíptica. Elas têm entre 3,5 e 7 metros de profundidade, 6 metros de largura e 1,5 metros de altura. Câmaras do mesmo formato e com as mesmas dimensões foram encontradas em abrigos subterrâneos escavados por preguiças gigantes há mais de 10 mil anos atrás. Estes abrigos são chamados de paleotocas.

6. Há outras superfícies côncavas perto do piso: Essas superfícies sugerem que o abrigo original era em um nível mais baixo, mas devido aos desabamentos do teto e das paredes, associada à limpeza periódica da gruta, a cavidade foi deslocada para cima e descaracterizada progressivamente. Inclusive a entrada original possivelmente era abaixo da entrada atual.

7. A posição da gruta confere com outras paleotocas: A entrada da gruta está localizada em um ponto estratégico, próximo a uma fonte de água, mas acima do nível de uma possível inundação. Além disso, está voltada para o Norte, recebendo o sol e evitando os ventos frios do Sul. Esta orientação das entradas e a proximidade à água são fatos reconhecidos em muitas outras paleotocas.

8. As dimensões da gruta são as mesmas das paleotocas de preguiças gigantes: A gruta tem uma profundidade de 30 metros para dentro do morro e uma porção lateral com 21 metros de comprimento. Estas dimensões são as mesmas de várias paleotocas bem típicas encontradas em outros locais.

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